Carlos Alberto Maciel é o vencedor do Prêmio bim.bon 2014 na categoria profissional da Casa 10×10, com a colaboração de Felipe Henrique Franco e Gabriel Nardelli Araújo. O projeto será construído na Feira Minascon.

 

“A concepção espacial destina-se a grupos domésticos que priorizam o convívio doméstico em relação à vizinhança, mas prezam uma relação visual com a cidade. Assim, os espaços do térreo fecham-se para o exterior enquanto o terraço da cobertura abre-se para a cidade. Seu interior baseia-se em uma estética bastante contemporânea que valoriza a exposição sem camuflagens dos componentes construtivos industrializados e serve-se da iluminação como elemento estruturador do espaço.”

  • – Marcelo Tramontano, jurado e professor da USP e UFSCar

Confira o texto dos arquitetos a seguir:

A Casa 10×10 se define a partir das seguintes premissas:

1 – flexibilidade e adaptabilidade;

2 – crescimento;

3 – conectividade e agregação em conjuntos;

4 – construção a seco.

FLEXIBILIDADE E ADAPTABILIDADE

A flexibilidade se realiza através da atenção ao desenho dos elementos permanentes, de modo a garantir a máxima indeterminação dos espaços internos, o que amplia as possibilidades de sua livre apropriação. Para isso, a casa se faz a partir de uma estrutura rigorosamente modulada, de 2,80m por 2,80m por 2,80m de altura. Nove módulos conformam um quadrado perfeito do qual se subtrai um pátio-jardim central que propicia uma ambiência interiorizada e qualificada para os espaços de permanência.

O conjunto de nove módulos é complementado por uma faixa de infraestrutura hidrossanitária, de um lado, e de outro, com uma faixa de circulação vertical. Embora projetada inicialmente em um único pavimento, a inclusão de uma escada e a previsão do uso eventual da cobertura como um terraço antecipa e orienta a possibilidade de crescimento.

Dois diferentes arranjos internos se apresentam, dentre vários possíveis, sugerindo alternativas para a articulação entre espaços principais e o pátio. A primeira define uma organização em ‘U’ ao redor do pátio, com grande continuidade espacial. A segunda define um pátio longitudinal que segmenta os espaços internos em dois, cujo caráter se diferencia mais claramente entre espaços potencialmente mais coletivos, e espaços potencialmente mais íntimos.

Em qualquer dos casos, propõe-se que a casa seja projetada como uma infraestrutura inicial – um suporte – constituída da estrutura, da envoltória, das faixas de instalações e circulação, deixando a eventual subdivisão interna – o preenchimento – a cargo do usuário final. Apresentam-se, contudo, diferentes layouts internos como mera exemplificação das diversas possibilidades de adaptação dos espaços internos aos diversos usos: espaços coletivos, dormitórios, espaços de trabalho.
O nível de indeterminação da estrutura proposta permite inclusive especular sobre sua acomodação de usos não residenciais – escritórios, comércio, um pequeno restaurante – sem a necessidade de grandes modificações na sua conformação básica.

CRESCIMENTO

A inclusão da escada externa na fase inicial de implantação, devido a sua localização estratégica em uma faixa que configura uma transição entre o domínio público e o espaço interno, permite o crescimento vertical da casa ou a sobreposição de uma segunda habitação, totalmente independente, no segundo pavimento.

A ampliação da residência original pode ser resolvida através da interiorização da escada, após a construção do segundo pavimento, cobrindo o intervalo e acrescentando uma nova porta de entrada, antes da escada. A duplicação da residência permite tratar o intervalo como um domínio semi-privado, compartilhado entre as duas moradias.

O uso inicial como um terraço retoma uma tradição brasileira: o uso da laje, que pode ser transformada em varanda, resgatando o quintal perdido nas ocupações de grande densidade, espaço que acolhe o indeterminado, o imprevisível, a festa.

CONECTIVIDADE E AGREGAÇÃO

A organização introspectiva dos espaços de permanência, além de viabilizar um maior controle climático, elimina totalmente a necessidade de aberturas em pelo menos duas das quatro faces do volume, e parcialmente em uma terceira, o que amplia a conectividade do módulo-casa, ampliando suas possibilidades de geminação. A concentração dos equipamentos sanitários em uma das faixas permite constituir um conjunto bem iluminado e ventilado através de uma janela em fita que caracteriza uma fachada frontal, conforme a orientação da implantação.

A agregação de unidades é definida pelas seguintes restrições: a faixa de instalações deve ter sua fachada maior liberada, para ventilação e iluminação natural dos equipamentos sanitários, cozinha e lavanderia; a esquina posterior à escada da faixa de circulação deve ser deixada liberada em uma de suas faces, para permitir uma ventilação cruzada nos espaços internos, de modo a melhorar a qualidade ambiental dos espaços de permanência; a esquina frontal à escada deve ser deixada liberada em um dos dois lados para permitir a conformação de uma transição de entrada à casa.

A partir dessas restrições apresentam-se algumas possibilidades deagregação das unidades:
– agregação linear, por geminação lateral, criando uma linha de casas ou sobrados que se conectam frontalmente com a via pública, e podem ter quintais individuais ou compartilhados – semi-privados;

  • agregação linear com espelhamento, criando intervalos semi-públicos de acesso a duas a quatro casas (no caso de duplicaçãovertical das habitações), na interface com a rua;
  • agregação em hélice, formando núcleos de quatro (ou oito) casas, com implantação gerando intervalos semi-públicos ou ruas de pedestres. No centro de cada núcleo forma-se um pequeno pátio interno compartilhados pelas quatro casas térreas, conformando um espaço semi-privado que assegura a ventilação cruzada nas unidades; a agregação em hélice permite a geminação não linear dos núcleos, formando grandes conjuntos de casas com geometria mais variada;
    – agregação em hélice com espelhamento, com as mesmas qualidades da agregação em hélice anterior, acrescida da possibilidade de geminação linear dos núcleos.

 

CONSTRUÇÃO A SECO

A construção proposta para a casa 10×10 pressupõe a máxima racionalidade, adotando sistemas de construção a seco por permitirem a redução de tempo e de geração de resíduos, bem como o uso intensivo de materiais e sistemas da industria mineira.

Ao considerar a industrialização total, permite-se especular sobre a criação de um sistema construtivo que poderia ser produzido industrialmente e comercializado sob demanda. Assim, a construção se divide nas seguintes etapas, que correspondem aos seguintes elementos:

  • fundações: moldadas in loco, em laje armada tipo radier pelo baixo peso próprio da estrutura, incorporando kit’s sanitários na execução (esgotos da faixa de instalações, cuja localização frontal favorece a conexão com os sistemas públicos);
  • estrutura principal: modulada em 2,80×2,80×2,80m, apresenta dois tipos de peças: pilares em tubo com costura 100x100x2800mm, que podem ser fornecidos com sapatas para fixação no radier e consoles ou esperas removíveis para receber as vigas em dois, três ou quatros lados; e vigas em tubo com costura 100x140x2700mm, com pré-furações e parafusos para fixação nos pilares. Alternativamente, uma solução mais econômica poderia considerar o fornecimento da estrutura com montagem soldada, mais rígida, embora com menor controle tecnológico;
  • faixa infraestrutural e empena lateral da escada: em estrutura leve autoportante tipo steelframe, com vedação em material leve permitindo a distribuição das redes de instalações no intervalo entre as vedações interna e externa. Por se tratar de um sistema construtivo, prevê-se que a vedação interna seja em gesso acartonado resistente a umidade, revestido por material a escolha do usuário, e a vedação externa seja eleita entre as alternativas disponíveis na indústria mineira: telha metálica pré-pintada; telha em alumínio; placa cimentícia usual em steelframe, sem vedação das juntas com acabamento aparente. No caso da empena lateral à escada, a estrutura poderia eventualmente ser deixada aparente, por não implicar, em um primeiro momento, em plano de vedação de um espaço interno. A lógica inerente ao sistema steelframe permite ainda que outros materiais leves, à medida que forem desenvolvidos e se mostrarem econômicos e eficientes, possam ser utilizados sem prejuízo do sistema geral. A vedação externa se eleva 1,30m acima da laje, conformando um espaço de entreforro capaz de acomodar reservatório de água e eventualmente boiler. Para equacionar a abertura em fita, o steelframe usa as partições transversais entre os cômodos como apoio para uma viga treliçada leve que conforma o apoio da face superior à janela.
  • laje de teto: pode variar desde laje pré-moldada ou laje com forma metálica tipo steeldeck (nestes casos, como exceção à montagem a seco), até a um sistema totalmente a seco, aqui apresentado, executado com aglomerado de madeira tipo OSB com caimento para drenagem e nervuras verticais em um sentido, do mesmo material, para enrijecimento e aumento da capacidade de carga do conjunto. Esse sistema pode ser deixado aparente ou pode ser construído com uma placa inferior aos modos de um forro, conformando um caixão perdido que pode receber material isolante para assegurar o pleno atendimento aos requisitos definidos na norma de desempenho para habitação, recém editada. Sobre as lajes, prevê-se em qualquer caso a aplicação de manta asfáltica e instalação de piso flutuante, no caso, mas não exclusivamente, em placas cimentícias. A drenagem da cobertura, dividida em duas águas, é de um lado orientada para a faixa de infraestruturas, podendo ser conduzida por dentro do steelframe ou aparente, dentro de um dos ambientes; do outro lado, a previsão de uma extremidade livre no topo ou ao lado da parte posterior da escada permite também drenar a segunda metade da cobertura através de um buzinote ou condutor externo;
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  • envoltória da estrutura principal: as demais faces externas da estrutura podem ser fechadas com pelo menos dois tipos de vedação, ambos produzidos pela indústria mineira, com diferentes resultados quanto à ambiência dos espaços internos e à aparência do volume construído: telhas duplas com isolamento termo-acústico em poliuretano, pré-pintadas ou galvanizadas ou em alumínio; ou toras de madeira empilhadas
  • Sistema Construtivo AMARU Perfilado. Em ambos os casos, os planos de vedação se sobrepõem externamente à estrutura, conformando uma envoltória contínua que se eleva em relação à cota da laje, conformando um peitoril no possível terraço sobre a casa. A altura total da parede se subdivide estruturalmente, no caso da parede de madeira, através da inclusão de uma cantoneira contínua fixada na viga perimetral, na cota 2,80, limitando o carregamento sobre as peças de madeira conforme recomendação do fabricante; a alternância entre pelo menos dois tipos distintos de materiais – e cores variadas – permite conformar conjuntos de casas com maior variedade, e pode inclusive permitir, no caso de um fornecimento sob demanda, a escolha pelo próprio usuário;
  • vedações de vãos para iluminação e ventilação: sempre em vidro temperado, com aberturas ora de correr, ora basculantes, favorecendo tanto a abertura e integração visual total entre espaços principais e o pátio interno, como entre aqueles e o intervalo da escada – faixa de circulação;
  • instalações elétricas: montadas com eletrodutos aparentes, afixados na face inferior da viga metálica da estrutura principal, permite uma distribuição flexível tanto de iluminação com de tomadas, coerentemente com as premissas de flexibilidade e adaptabilidade apresentadas. Definem-se de modo mais permanente, com rede de eletrodutos embutida, apenas nas áreas molhadas, cujo arranjo funcional tende a apresentar maior pré-determinação.

Construção a seco gera redução de resíduos e redução de impactos do processo de construção. Estratégias de agregação asseguram um bom desempenho ambiental na escala doméstica e na escala urbana. Flexibilidade, adaptabilidade e crescimento ampliam a vida útil das estruturas ao aumentar seu potencial de transformação e adaptação a novos usos. A soma das diferentes estratégias resulta em um suporte perene de baixo impacto ambiental, repercutindo a preocupação contemporânea quanto à sustentabilidade em termos efetivamente arquitetônicos, sem prescindir dos diversos incrementos tecnológicos desenvolvidos pela engenharia – coleta e reuso de água, uso de energias alternativas – que podem facilmente ser incorporados à solução arquitetônica sem prejuízo de sua qualidade e integridade.

A CASA 10×10 apresenta-se, portanto, como um protótipo de uma pequena infraestrutura, por princípio inacabada, ou, em outras palavras, como uma célula inicial, um piso iluminado e equipado com alto potencial de crescimento, replicação e transformação para acolher o imprevisível e gerar cidades mais qualificadas, mais humanas.

A Casa 333 utiliza produtos das empresas do estado de Minas Gerais. Conheça abaixo as marcas e os produtos:

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*texto dos arquitetos.
imagens Divulgação