Mês do orgulho LGBTQIA+

Bar Stonewall Inn nos dias de hoje

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Demarcar o início dessa luta é praticamente impossível, pois a homossexualidade é tão antiga quanto a própria humanidade. Ela é identificada em diversas espécies do reino animal, mas somente na nossa identificamos o preconceito. A história moderna da luta pelos direitos LGBTQIA+ tem uma data e local de partida, o dia 28 de junho de 1969, em Nova York, no bar chamado Stonewall Inn.

Bar Stonewall Inn, em 1969
Bar Stonewall Inn, em 1969

Qualquer prática homossexual era considerada crime em todos os estados estadunidenses até 1962, a punição variava entre prisão em regime fechado, trabalhos forçados ou mesmo a pena de morte. O que aconteceu em Stonewall se deu em um país que havia “legalizado” o amor entre pessoas do mesmo sexo somente há sete anos. Então, eram raros os estabelecimentos que recebiam pessoas abertamente gays nos EUA. Aqueles que o faziam, recebiam violentas batidas policiais com frequência. O Stonewall Inn era o único bar gay de Nova York, e para manter-se, os proprietários pagavam alta propina à polícia. O bar não tinha licença para comercializar bebidas alcoólicas, não tinha saídas de emergência, não correspondia às exigências sanitárias legais, mas era o único bar abertamente gay em toda cidade, e que tinha como seu principal atrativo a dança, nele os homens eram permitidos de dançar.

Ainda assim, as batidas policiais no Stonewall Inn eram constantes, frequentemente prendendo funcionários, clientes sem identificação ou simplesmente homens trans ou vestidos como mulheres, já que a lei da época previa prisão para homens travestidos. No dia 28 de junho de 1969, quatro policiais invadiram o local, que havia pouco mais de 200 pessoas presentes. O procedimento padrão de alinhar os clientes, conferir seus documentos e separar os “vestidos de mulher” para que policiais femininas pudessem conferir seus sexos, sofreu recusa por parte dos clientes. A decisão inicial foi de levá-los para a delegacia. O desconforto foi se transformando em revolta conforme uma pequena multidão de clientes e curiosos começaram a se aglomerar ao redor do bar.

Antes que chegasse o primeiro camburão a multidão havia aumentado em dez vezes e, com isso, também a tensão. Os manifestantes cantavam os primeiros versos da clássica canção de protesto “We Shall Overcome” (Nós vamos vencer), uma briga entre uma mulher, Marsha P. Johnson, e um policial estourou. Ela, enquanto era tratada com violência pelos oficiais, convocou a multidão a fazer algo para ajudá-la e foi assim que as demais pessoas presentes aderiram, por empatia, à revolta. Marsha foi uma travesti negra, latina, portadora do HIV e uma das maiores referências ativistas dos EUA pela libertação da comunidade LGBTQIA+.

Marsha P. Johnson, pioneira da causa LGBTQIA+
Marsha P. Johnson, pioneira da causa LGBTQIA+

Pessoas ainda estavam detidas dentro do Stonewall quando pedras, tijolos e lixo em chamas começaram a ser atirados contra as janelas, porta do bar e viaturas policiais. A multidão invadiu o local, a polícia ameaçou atirar, e tudo aconteceu por cerca de 45 minutos, até que novas viaturas chegaram para conter a situação. O bar foi completamente destruído.

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Era a primeira vez que um grupo abertamente homossexual se reunia e se rebelava. E ainda com as prisões, conseguiam conter a indevida ação policial. Um grupo ainda maior se reuniu na noite seguinte, com uma nova abordagem: já que haviam perdido o local secreto que podiam demonstrar seus afetos, agora o fariam em público. Ainda em ruínas o Stonewall abriu suas portas na noite seguinte, mas o que havia era uma multidão, que se espalhou por diversos quarteirões ao redor. Com a chegada da polícia, a confusão se instaurou e novamente a luta nas ruas percorreu a madrugada.

Rebeliões de Stonewall
Rebeliões de Stonewall

Em poucos meses, praticamente todas as cidades americanas fundaram suas organizações pelos direitos homossexuais. No aniversário de um ano da Revolta de Stonewall as primeiras marchas aconteceram nos EUA. Por conta das revoltas de Stonewall que a parada LGBTQIA+, que hoje acontece em quase todos os países do mundo, se dá quase sempre em junho. Colocando milhões de pessoas espalhadas por centenas de países anualmente, a parada é uma das maiores manifestações políticas do mundo, desde o final dos anos 60.

Curiosamente o Brasil, país onde mais ocorrem crimes de ódio contra LGBTs no mundo, foi um dos primeiros países a descriminalizar a homossexualidade, durante o Império, em 1830. A Parada do Orgulho LGBTQIA+ de São Paulo começou somente em 1997, mas rapidamente se tornou uma das maiores do mundo, sendo hoje o evento que mais reúne turistas na capital paulista. É o segundo evento do Brasil com maior número de turistas, perdendo somente para o carnaval carioca.

A sociedade tem evoluído, mas ainda há muito a ser conquistado. Atualmente, em 70 países a homossexualidade é criminalizada com prisão e até pena de morte. Somente em junho de 1990 que a Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade da CID (Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados à Saúde), abolindo o termo “homossexualismo”, já que o sufixo ismo normalmente remete-se à uma condição médica. A transexualidade só deixou de ser classificada como doença pela OMS em junho de 2018.

As rebeliões de Stonewall representam o levante de uma população em revolta, em busca do direito de ser quem quiserem ser, e de amar quem quiserem amar. O orgulho LGBTQIA+ não nasceu da necessidade de celebrar ser lésbica, gay, bi ou trans, mas sim pela luta ao direito de existir sem sofrer perseguição.

Bar Stonewall nos dias de hoje

Fontes:
https://catracalivre.com.br/cidadania/22a-parada-orgulho-lgbt-sp-tema-eleicoes/
https://medium.com/@mkacir97/history-is-gay-marsha-p-johnson-5b8938bb2d75
https://www.nytimes.com/2019/06/27/nyregion/stonewall-inn-nyc-1969.html
https://www.history.com/topics/gay-rights/the-stonewall-riots
https://www.hypeness.com.br/2018/06/como-as-revoltas-de-stonewall-na-ny-de-1969-empoderou-o-ativismo-lgbt-para-sempre/

Daniel Costa

Daniel é arquiteto mineiro que reside em São Paulo. Aspirante a blogueiro, você poderá encontrá-lo no techno, na ciclovia ou no boteco mais próximo. daniel@hometeka.com.br

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